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12 de janeiro de 2010

A graça de ser… André!



Graça aqui não tem nada a ver com riso, me refiro à graça de Deus, sobrenatural. Nos últimos tempos, os personagens menores da Bíblia têm me chamado muita atenção, em especial os citados no Novo Testamento, e com eles tenho aprendido. Ao dizer personagens menores, me refiro a terem sido citados uma única vez, às vezes só o nome, dito uma ou duas frases, se aproximado de Jesus com um gesto... Entretanto, mesmo tendo este perfil, se os autores bíblicos os incluíram na Palavra de Deus, é porque, de alguma maneira, o Espírito do Senhor poderia nos falar através deles.
Um destes que me tem acompanhado é o Apóstolo André, irmão mais novo de São Pedro que é citado, nominalmente, pelos evangelistas Mateus (cf. Mt 4,18-19), Marcos (cf.Mc 1,16) Lucas fala do contexto de pescadores mas não cita o nome, e por João, que acrescenta que ele já seguia João Batista (cf. Jo 1,40-42). Interessante porque os primeiros discípulos a serem chamados são dois pares de irmãos, todos pescadores, e nós os conhecemos bem: Pedro e André, Tiago e João. Jesus os elege e os forma para serem pescadores de homens, André, porém, parece cumprir esta missão num tom menor, mais escondido, todo particular.
Digo isso porque ele não está presente em momentos cruciais da vida de Jesus, seja no êxtase da transfiguração no Monte Tabor, seja na agonia no Monte das Oliveiras, onde os evangelhos nos falam somente de Pedro, Tiago e João. Estes eventos da vida de Jesus jamais se repetirão na história e no tempo e só poderão ser contemplados e vividos misticamente, em oração, a quem Deus aprouver conceder esta graça e ninguém participará novamente destes eventos do jeito que estes três Apóstolos participaram. Por que André não estava junto? Creio que não haja resposta para esta pergunta e seja talvez, uma especulação vã.
Todavia, onde está André? Em quais relatos somente ele aparece e o que eles nos ensinam? Temos dois textos-chave, todos em João: o convite feito a Cefas para que ele também conheça o Messias, em João 1,41-42, e na multiplicação dos pães, capítulo 6,8-9.
Primeiramente André é um evangelizador, que testemunha e leva alguém da própria família até Jesus, seu irmão mais velho, que não devia ser um camarada muito fácil de ser dobrado e convencido de nada. André parece não ter desistido e testemunha e acompanha o irmão até que o encontro pessoal entre Jesus e Cefas aconteça. André nos ensina aqui a perseverança na evangelização e o acompanhar nossas ovelhas, formandos, amigos, parentes, vocacionados, o quanto for necessário, em presença e oração, pacientemente, até que o vínculo entre as pessoas e o Senhor se estabeleça pela vida da graça, pela vida sacramental e oracional, pela experiência comunitária. Parece que a alegria de André é que Cefas se torne Pedro, não se importando muito se o irmão, no futuro, venha a ser muito mais importante do que ele, ao se tornar autoridade suprema entre os Apóstolos, inclusive sobre ele, André.
Na multiplicação dos pães André é aquele que encontra no meio da confusão alguém, um menino, com seu lanche e o encaminha para Jesus, humildemente, por mais estúpido que possa parecer alguém pretender alimentar uma multidão de milhares de pessoas barulhentas e famintas, dispersas, com cinco pães e dois peixes! Mas André nos mostra aqui como os homens também podem ser sensíveis e atentos aos detalhes, não sendo este um atributo exclusivo feminino, e podem achar o escondido e o improvável onde não parece haver saída e onde tudo parece escondido e improvável! André é um homem inteligente, centrado e obediente que vai atrás de alguma solução para que a ordem de Jesus se cumpra. Ele se ocupa mais com o que Jesus diz do que com o que as circunstâncias gritam, e parte para a ação! Não ficou divagando sobre as improbablidades e a não-lógica, nem implicando com os outros companheiros para que fizessem alguma coisa, mas partiu, movendo-se na fé, trazendo de volta para Jesus o que encontrou, o que conseguiu, o fruto do seu esforço, boa vontade, enfim, aquilo que deu conta de fazer. Se não tivesse sido por esta atitude tão generosa e também evangelizadora de André – que mais uma vez teve que convencer o menino a ir até Jesus e abrir mão do seu lanchinho – nós não teríamos o relato deste milagre tão excepcional de Jesus que prefigura a Eucaristia, todos sabemos, o Pão Vivo descido dos céus.
Nossa experiência de vida eclesial, seja ela comunitária, de consagrados, ou de simples paroquianos e servos nas pastorais, nos aproxima muito mais da vida evangelizadora de André do que da vida dos outros três Apóstolos, com experiências únicas e extraordinárias. A escolha do lugar onde cada um deve estar sempre parte de Jesus, o Senhor. O importante não é a geografia de nosso posicionamento, se a norte, sul, leste ou oeste, em cima do palco ou no altar, usando o microfone, ou atrás dele, se na arquibancada e no anonimato, ou liderando alguma equipe. O que vale é estar onde Deus quer, com a certeza interior profunda e pessoal de quem diz: 'Encontrei Jesus! Ele me ama e faz de mim pescador de homens!'.
Elena Arreguy Sala
Missionária da Com. Católica Shalom em Israel
Fonte: http://www.comshalom.org/formacao

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