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6 de setembro de 2011

Nigéria: o “gigante da África” não tem paz

Novos enfrentamentos entre cristãos e muçulmanos


Por Paul De Maeyer


Violentíssimos enfrentamentos entre cristãos e muçulmanos provocaram em Jos, na Nigéria central, o fim do jejum islâmico do Ramadã. Segundo as últimas informações, os distúrbios na capital do estado de Plateau provocaram ao menos vinte mortos e cinquenta feridos no último 29 de agosto, e outras dez vítimas no dia seguinte. Dezenas de carros, casas e lojas foram incendiados e destruídos.

Não se sabem os motivos concretos dos incidentes, mas, segundo os meios de comunicação locais, entre os quais The Vanguard, o pandemônio começou com uma discussão entre grupos de jovens cristãos e muçulmanos. “Um grupo de muçulmanos ia para uma área particular e um grupo de cristãos ia rezar no mesmo lugar. Eles começaram a discutir sobre quem era o dono daquele lugar”, relatou à agência Fides (30 de agosto) o arcebispo de Jos, Dom Ignatius Ayau Kaigama, acrescentando que não sabia de mais detalhes.

Durante todo o mês de agosto, a tensão inter-religiosa foi altíssima no estado de Plateau. Segundo Compass Direct News (28 de agosto), foram assassinados 24 cristãos em diversos povoados durante uma série de ataques. Entre 11 e 15 de agosto, seis cristãos foram mortos no povoado de Ratsa Foron e 10 em Heipang, dos quais nove eram da mesma família. Outras seis vítimas foram confirmadas em 21 de agosto em Kwi, Loton e Jwol.

Segundo testemunhas, os extremistas muçulmanos foram ajudados pelos soldados da força-tarefa enviada à região para proteger o povo. “Eles tinham o uniforme do exército. Conheço alguns deles, que vieram junto com os muçulmanos para nos atacar”, contou uma mulher, Nnaji John, que perdeu a família num dos ataques. “Eu posso jurar por Deus Onipotente que o ataque foi realizado com o apoio dos soldados, eu vi”, reforçou.

O governador do estado, Jonah Jang, também acusa o exército e exige a sua retirada imediata. “Tenho certeza de que esta crise religiosa do país está contaminando as forças armadas”, declarou Jang. “Antes o pessoal militar ficava nos quartéis, agora as forças armadas começaram a tomar partido nesta crise religiosa, e, se eles não forem chamados à ordem, a situação vai ficar perigosíssima para o país”, advertiu.

A situação no estado de Plateau, em particular na capital, Jos, conhecida antigamente como a “cidade da paz” por causa da convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos, reflete o crescente nível de insegurança do país mais povoado da África, que em 2050 poderá ter mais de 300 milhões de habitantes (SlateAfrique, 31 de agosto).

A violência afetou também a capital federal, Abuja, atingida na semana passada por um atentado suicida. Em 26 de agosto, um carro cheio de explosivos, conduzido por um kamikaze, driblou as medidas de segurança avançou contra a sede das Nações Unidas, provocando 23 vítimas fatais e mais de 80 feridos. O grupo extremista anti-ocidental Boko Haram reivindicou o atentado através de uma ligação telefônica para a BBC.

Cinco dias antes do atentado, as autoridades prenderam dois membros do grupo, que em 31 de agosto acusaram uma terceira pessoa de projetar a tragédia. “A investigação revelou que um tal Mamman Nur, conhecido membro do Boko Haram, próximo da Al Qaeda e que voltou recentemente da Somália, organizou o ataque contra o edifício das Nações Unidas em Abuja”, lê-se em comunicado dos serviços de segurança, pedindo aos cidadãos que colaborem com informações para prender o fugitivo (BBC, 31 de agosto).

Não é a primeira vez que o grupo, definido como os “talibãs da Nigéria”, ataca um objetivo sensível no coração da capital. Há dois meses e meio, eles foram também os responsáveis pelo atentado contra a sede central da polícia federal, que matou pelo menos uma dezena de pessoas (Cfr. ZENIT, 19 de junho).

Para desmantelar o grupo fundamentalista, as autoridades atacaram em 2009 a sede da organização na capital do estado de Borno, Maiduguri, matando o chefe Mohammed Yusuf e quase 780 seguidores. A sanguinária ofensiva não serviu de nada, a não ser “reforçar sua virulência e periculosidade”, observa SlateAfrique. Os militantes do grupo, que têm relações com a Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) e com o infame movimento somali dos Al-Shabaab, são capazes de atacar em qualquer estado nigeriano, inclusive no coração de Abuja.

O grupo é menos isolado do que se pensa. De acordo com o perito Tunde Fatunde, uma parte da elite do norte muçulmano apoia “secretamente” o movimento porque não aceita a vitória de Goodluck Jonathan, um cristão do sul, nas eleições presidenciais de abril. A velha oposição norte-sul, que já foi a origem da guerra do Biafra (1967-1970), é palpável na Nigéria. “Os sulistas já têm o poder econômico. Se dermos a eles o poder político, o que nos resta?”, pergunta a Slate Afrique o funcionário do estado de Kano, Musa Belo, em demonstração da delicadeza da situação.

Para o arcebispo de Abuja, Dom John Olorunfemi Onaiyekan, o último atentado na capital é “muito triste e provoca uma profunda preocupação”. “Não sabemos até onde essas pessoas querem chegar e eu me pergunto que forças estão por trás desses acontecimentos. Esperamos uma resposta adequada do governo para parar essa violência”, declarou o prelado a Fides (27 de agosto).

O sultão de Sokoto, Sa'adu Abubakar III, rechaçou o atentado. “Nós condenamos seriamente esse ato”, disse em uma mensagem à “ummah”, ou comunidade muçulmana da Nigéria (The Vanguard, 31 de agosto). Foi o que disse também o arcebispo de Jos. “É verdadeiramente deprimente e vergonhoso receber todos os dias notícias de ataques com bombas e atos violentos em diversas partes do país” (Fides, 30 de agosto). 
Como se não bastasse a violência do homem, também o mau tempo castiga a Nigéria. As intensas chuvas que durante dias castigaram o sudoeste do “gigante da África” – como a Nigéria é conhecida – deixaram ao menos 102 mortos.

fonte:
http://www.zenit.org/

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