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31 de março de 2010

Homilia de Bento XVI no 5º ano da morte de João Paulo II

Venerados Irmãos no Episcopado e no sacerdócio,
queridos irmãos e irmãs!

Estamos reunidos em torno do altar, junto ao túmulo do Apóstolo Pedro, para oferecer o Sacrifício eucarístico em sufrágio da alma eleita do Venerável João Paulo II, no quinto aniversário da sua morte. Fazemo-lo com alguns dias de antecedência, pois o 2 de abril será, neste ano, a Sexta-feira Santa. Estamos, no entanto, dentro da Semana Santa, o contexto mais propício ao recolhimento e à oração, em que a liturgia nos faz reviver mais intensamente os últimos dias da vida terrena de Jesus. Desejo expressar minha gratidão a todos vós que estais participando desta Santa Missa. Saúdo cordialmente os Senhores Cardeais - especialmente o Arcebispo Stanislaw Dziwisz - os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, bem como os peregrinos, especialmente os vindos da Polônia, e a tantos jovens e muitos fiéis que não quiseram perder esta celebração.

Na primeira leitura bíblica que foi proclamada, o profeta Isaías apresenta a figura de um "Servo de Deus", que é, simultaneamente, o seu escolhido, no qual ele se compraz. O Servo agirá com firmeza inabalável, com uma energia que não desaparece até que tenha realizado a tarefa que lhe foi atribuída. No entanto, ele não terá à sua disposição aqueles meios humanos que parecem indispensáveis para implementar um plano tão grandioso. Ele se apresentará com a força da convicção, e será o Espírito que Deus colocou nele a dar-lhe a capacidade de agir com delicadeza e força, assegurando-lhe o sucesso final. Aquilo que o profeta inspirado disse sobre o Servo, o podemos aplicar ao amado João Paulo II: o Senhor chamou-o ao seu serviço e, confiando-lhe tarefas de sempre maior responsabilidade, também o acompanhou com sua graça e com a sua assistência contínua. Durante o seu longo Pontificado, ele se prodigalizou no proclamar o direito com firmeza, sem fraquezas ou hesitações, especialmente quando teve de lidar com a resistência, hostilidade e desperdício. Sabia ser conduzido pela mão do Senhor, e isso lhe permitiu exercer um ministério muito fecundo, pelo qual, mais uma vez, damos graças fervorosas a Deus.

O Evangelho há pouco proclamado nos conduz a Betânia, onde, como observa o Evangelista, Lázaro, Marta e Maria ofereceram um jantar ao Mestre (Jo 12, 1). Esse banquete na casa dos três amigos de Jesus é caracterizado pelo pressentimento da morte iminente: os seis dias antes da Páscoa, a sugestão do traidor Judas, a resposta de Jesus que lembra um dos atos piedosos da sepultura antecipados por Maria, o acenar de que nem sempre o terão com eles, o propósito de eliminar a Lázaro, em que se reflete a vontade de matar Jesus. Neste relato evangélico, há um gesto sobre o qual eu gostaria de focar a atenção: Maria de Betânia "levou trezentos gramas de perfume de nardo puro, muito precioso, com o qual ungiu os pés de Jesus, e após os enxugou com seus cabelos" (Jo 12, 3). O gesto de Maria é a expressão de fé e grande amor pelo Senhor: para ela, não é suficiente lavar os pés do Mestre com água, mas os unge com uma grande quantidade de perfume precioso, que - como contestará Judas - se teria podido vender por trezentos denários; não unge, pois, a cabeça, como era usual, mas os pés: Maria oferece a Jesus aquilo que tem de mais valiosos e com um gesto de devoção profunda. O amor não calcula, não mede, não se importa em gastar, não coloca obstáculos, mas se doa com alegria, procurando apenas o bem do outro, vence a mesquinhez, as mesquinharias, os ressentimentos, o fechamento que o homem carrega às vezes em seu coração.

Maria se coloca aos pés de Jesus em humilde atitude de serviço, como fará o Próprio Mestre durante a Última Ceia, quando - nos diz o quarto Evangelho - "levantou-se da mesa, depôs as suas vestes e, pegando duma toalha, cingiu-se com ela. Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido" (Jo 13,4-5), para que - disse - "como eu vos fiz, assim façais também vós" (v. 15): a regra da comunidade de Jesus é aquela do amor que sabe servir ao dom da vida. E o perfume se espalha: "toda a casa - anota o Evangelista - foi tomada pelo aroma do perfume" (Jo 12,3). O significado do gesto de Maria, que é resposta ao amor infinito de Deus, se difunde entre todos os convidados; todo o gesto de amor e devoção autêntica a Cristo não permanece um fato pessoal, não afeta somente a relação entre o indivíduo e o Senhor, mas afeta todo o corpo da Igreja, é contagioso: infunde amor, alegria e luz.

"Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam" (Jo 1, 11): ao ato de Maria, se contrapõe a atitude e as palavras de Judas, que, sob a pretexto de ajuda aos pobres, esconde o egoísmo e a falsidade do homem fechado em si mesmo, acorrentado à ganância de posse, que não é envolta pelo bom perfume do amor divino. Judas calcula lá onde não se pode calcular, entra com espírito mesquinho onde o espaço é o do amor, do dom, da dedicação total. E Jesus, que até aquele momento havia permanecido em silêncio, falou em favor do gesto de Maria: "Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura" (Jo 12,7). Jesus compreende que Maria sentiu o amor de Deus e agora indica que sua "hora" está se aproximando, a "hora" em que o Amor encontrará sua expressão suprema no lenho da Cruz: o Filho de Deus doa a si mesmo para que o homem possa ter vida, cai no abismo da morte para levar o homem à altura de Deus, não tem medo de se humilhar "fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz" (Fil 2,8). Santo Agostinho, no Sermão em que comenta tal passagem do Evangelho, dirige a cada um de nós, com palavras insistentes, o convite a entrar neste circuito de amor, imitando o gesto de Maria e se colocando concretamente no seguimento de Jesus. Escreve Agostinho: "Toda alma que deseja ser fiel, una-se a Maria com perfume precioso para ungir os pés do Senhor [...] Ungir os pés de Jesus: siga as pegadas do Senhor, levando uma vida digna. Enxugue-lhe os pés com os cabelos: se livre do supérfluo e dá-o aos pobres, e tereis enxugado os pés do Senhor" (In Ioh. evang., 50, 6).

Queridos irmãos e irmãs! Toda a vida do Venerável João Paulo II se desenvolveu sob o signo da caridade, da capacidade de doar-se generosamente, sem reservas, sem medidas, sem cálculos. Aquilo que o movia era o amor a Cristo, a quem tinha consagrado a vida, um amor superabundante e incondicional. E exatamente porque se aproximou sempre mais a Deus no amor, pôde fazer-se companheiro de viagem para o homem de hoje, espalhando no mundo o perfume do Amor de Deus. Quem teve a alegria de conhecê-lo e ser-lhe próximo, pôde tocar com a mão o quão viva era nele a certeza "de contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos", como ouvimos no Salmo responsorial (26/27, 13); certeza que o acompanhou durante a sua existência e, em particular, se manifestou durante o último período da sua peregrinação nesta terra: a progressiva debilidade física, de fato, nunca afetou a sua fé rochosa, a sua luminosa esperança, sua caridade ardente. Se deixou consumir por Cristo, pela Igreja, pelo mundo todo: o seu foi um sofrimento vivido até o fim por amor e com amor.

Na Homilia pelo XXV aniversário de seu Pontificado, ele lembrou que sentiu forte em seu coração, no momento da eleição, a pergunta de Jesus a Pedro: "Tu me amas? Me amas mais do que estes ...?" (Jo 21, 15-16); e acrescentou: "Todos os dias se realiza, dentro do meu coração, o mesmo diálogo entre Jesus e Pedro. No espírito, fixo o olhar benevolente de Cristo ressuscitado. Ele, apesar de estar consciente da minha fragilidade humana, encoraja-me a responder com confiança, como Pedro: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo' (Jo 21, 17). E me convida a assumir as responsabilidades que Ele mesmo me confiou" (16 de Outubro de 2003). São palavras cheias de fé e de amor, o amor de Deus, que tudo vence!

[Por fim, desejo saudar os poloneses aqui presentes. Vos reunis em grande número em torno do túmulo do Venerável Servo de Deus com um sentimento especial, como filhas e filhos da mesma terra, crescido na mesma cultura e tradição espiritual. A vida e a obra de João Paulo II, grande polonês, possa ser para vós motivo de orgulho. No entanto, devemos lembrar que isso é também um grande apelo a serdes fiéis testemunhas da fé, da esperança e amor, que ele nos ensinou ininterruptamente. Pela intercessão de João Paulo II, vós tereis sempre a benção do Senhor.]

Enquanto prosseguimos a celebração eucarística, nos preparemos para viver os dias gloriosos da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, nos entreguemos com confiança - a exemplo do Venerável João Paulo II - à intercessão da Beata Virgem Maria, Mãe da Igreja, a fim de que nos sustente no compromisso de sermos, em toda a circunstância, apóstolos incansáveis do seu Filho divino e do seu Amor misericordioso. Amém!

Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=275927

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